Idade não é desculpa para os passeios de Terumi e Toyo

Seção No Batel   •   Data 24/05/2012   •   Nenhum comentário

Saiu o sol e lá vão elas para mais um passeio. Só mesmo o tempo ruim para deixar em casa as amigas Toyo Kato e Terumi Terada, com 92 e 93 anos respectivamente. Moradoras da Sete de Setembro, elas saem de casa e num passo miúdo vão devagar até a Praça do Japão, após o almoço, para colocar a conversa em dia. Na praça escolhem um banco e começam o bate-papo em sua língua-mãe. Assunto parece não lhes faltar, mas, certamente, a novela das oito é o tema principal. Não a novela de qualquer canal de TV brasileiro, mas, sim, a novela do canal japonês NHK. Ou o assunto versa sobre as reuniões semanais: todas as quartas-feiras, reunião da terceira idade no Nikkey Clube, no Uberaba; aos sábados, em um templo budista, cerimônia religiosa e lanche, e uma vez por mês, numa sexta-feira, reunião na Igreja Hollyness.
Vizinhas de prédio, as amigas têm a companhia de Marli, acompanhante de Terumi. São inseparáveis nos passeios nas reuniões de terceira idade e até a Praça do Japão. Ali, além dos bate-papos fazem a visita a Kinkaku-ji (casa existente na praça e que é réplica do templo Kinkaku-ji japonês de mesmo nome construído no século XIV), para saber das novidades da colônia. A idade não é obstáculo para elas e os passeios têm efeito terapêutico.
A senhora Toyo tem, certamente, muitas histórias a contar, pois episódios de sua vida lhes deram subsídios para escrever um livro: “A saga de Komako – Cicatrizes da cruel guerra na vida de uma mulher”. Como numa espécie de diário, Toyo conta o seu drama, a morte de seu marido e duas filhas durante a Segunda Guerra Mundial, após a fuga para a Rússia, seu novo casamento, as duas filhas desse matrimônio e a vinda da família para o Brasil, com uma passagem por alguns anos na República Dominicana.
O sofrimento nesses anos difíceis da guerra, o tempo vivido na Manchuria e na Russia, e as dificuldades encontradas em assentamentos agrícolas na imigração na República Dominicana e no Brasil foram têmpera que forjou essa senhora japonesa. Seus 92 anos parecem não lhe pesar. Diariamente acorda às 6 horas da manhã para preparar o café para sua filha Marta e o genro Mário. À noite, encarrega-se de preparar o jantar e serve-o antes das 20 horas, para não perder sua novela na NHK. Se a filha e o genro demoram-se um pouco mais para fechar o salão de beleza que têm na Sete (o Cut House), ela deixa a mesa posta e vai para frente da televisão. Nada a faz perder o seu capítulo da novela, embora, com certeza, o enredo do folhetim não tenha nuances tão fortes como foi sua vida.
As amigas Toyo e Terumi são, certamente, um bom exemplo de vida.

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